Uma pesquisa conduzida durante três anos pela Embrapa Semiárido identificou uma relação direta entre a exposição ao frio e o escurecimento da polpa da manga, problema conhecido como black flesh ou “corte negro”.
O distúrbio fisiológico aparece principalmente na região próxima à semente e pode comprometer a qualidade dos frutos e a aceitação da manga no mercado.
Os pesquisadores verificaram que o problema ocorre principalmente em frutos mais sensíveis ao frio, colhidos em estágios menos avançados de maturação e posteriormente submetidos a baixas temperaturas durante o armazenamento e o transporte refrigerado.
Exposição ao frio e o escurecimento da polpa da manga

O estudo também apontou medidas capazes de reduzir a ocorrência do distúrbio. Entre as estratégias estão a escolha adequada do ponto de colheita, o controle das condições da cadeia de frio, o uso de contêineres com atmosfera controlada e a aplicação do 1-metilciclopropeno (1-MCP), composto que reduz a ação do etileno, hormônio relacionado ao amadurecimento dos frutos.
O problema tem impacto sobre uma cadeia importante para a fruticultura brasileira. O país é o sexto maior produtor mundial de manga e mais de 90% das exportações brasileiras da fruta têm origem no Vale do São Francisco. Como os frutos destinados à Europa, aos Estados Unidos e à Ásia permanecem por semanas em contêineres refrigerados, as condições de transporte podem favorecer o desenvolvimento do distúrbio.
Uma das dificuldades está no fato de que o defeito não costuma ser percebido externamente. A manga pode chegar ao consumidor com aparência normal e apresentar o escurecimento somente depois de ser cortada. Dessa forma, o problema pode afetar a experiência de consumo e gerar perdas para produtores e exportadores.
O escurecimento também não se manifesta necessariamente no campo ou no momento da colheita. De acordo com os resultados da pesquisa, o distúrbio se desenvolve principalmente durante as etapas de armazenamento e transporte refrigerados.
Estratégias para reduzir o problema

Os experimentos foram realizados com as variedades Tommy Atkins, Kent, Palmer e Keitt, produzidas em pomares comerciais que já apresentavam histórico de ocorrência do distúrbio.
Uma das medidas identificadas pela pesquisa é antecipar ou retardar a colheita de acordo com o estágio adequado de maturação. Frutos retirados do pomar ainda muito verdes demonstraram maior sensibilidade às baixas temperaturas e, consequentemente, maior predisposição ao escurecimento da polpa.
O controle da temperatura durante o armazenamento e o transporte também se mostrou importante. Nos experimentos, temperaturas entre 8 °C e 10 °C favoreceram o aparecimento do problema em frutos suscetíveis.
Outra alternativa avaliada foi o transporte em contêineres de atmosfera controlada. Nesse sistema, os níveis de oxigênio são reduzidos para limitar a respiração e o metabolismo dos frutos, contribuindo para a manutenção da qualidade durante viagens mais longas.
A quarta estratégia analisada foi o uso do 1-MCP. O composto já é utilizado para retardar o amadurecimento de diferentes frutas e, no estudo, também apresentou resultados no controle do escurecimento da polpa da manga.
Nos testes, a aplicação do produto reduziu tanto a ocorrência quanto a intensidade do distúrbio e ajudou a preservar a firmeza da polpa e a capacidade antioxidante dos frutos durante o armazenamento refrigerado.
Nas variedades Tommy Atkins e Keitt, a incidência de escurecimento chegou perto de 100% nos frutos que não receberam tratamento após 45 dias armazenados a 9 °C. Com a aplicação de 1-MCP na concentração de 200 nanolitros por litro, o índice ficou abaixo de 60%.
O efeito está relacionado à ação do composto sobre o etileno. Ao bloquear a atuação do hormônio, o 1-MCP retarda processos ligados ao amadurecimento e pode reduzir os efeitos fisiológicos associados à exposição dos frutos a baixas temperaturas.







