As mudanças no clima da Amazônia não estão ocorrendo de maneira uniforme. Um estudo publicado na revista Communications Earth & Environment identificou que eventos extremos de calor e seca vêm avançando também sobre áreas da floresta que permanecem mais preservadas.
A pesquisa contou com a participação de cientistas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e reuniu especialistas de 31 instituições de seis países.
Clima da Amazônia

Os pesquisadores analisaram a ocorrência de temperaturas elevadas e períodos de seca em diferentes pontos da Amazônia para verificar como esses eventos se comportam em relação às condições médias registradas em todo o bioma. O resultado mostrou que as áreas que enfrentam as maiores mudanças no clima extremo não são necessariamente as mesmas que concentram os maiores índices de desmatamento.
A porção sul da Amazônia, onde está localizado o chamado arco do desmatamento, continua sendo a região com maior perda de vegetação nativa e também apresentou um ritmo mais acelerado de aquecimento. No entanto, foi no centro-norte da floresta, onde ainda existe uma cobertura florestal mais extensa, que os pesquisadores encontraram os sinais mais expressivos de eventos climáticos extremos.
A diferença chama atenção porque mostra que os efeitos da crise climática não estão restritos às regiões diretamente pressionadas pela retirada da vegetação. Mesmo áreas mais distantes dos principais focos de desmatamento passaram a registrar períodos de calor e seca acima do padrão observado no restante do bioma.
Para chegar a essa conclusão, os cientistas avaliaram os momentos em que as condições de temperatura e disponibilidade de água se afastaram de maneira mais significativa da média amazônica. A metodologia permitiu identificar não apenas a intensidade dos eventos, mas também as regiões onde eles estão se tornando mais frequentes.
Os dados indicam que a região central da Amazônia apresentou variações climáticas extremas 2,34 vezes superiores à média registrada para o bioma. Segundo os pesquisadores, o comportamento está relacionado à repetição de períodos excepcionalmente quentes e secos, capazes de provocar impactos mais rápidos sobre a vegetação e a biodiversidade.
A preocupação aumenta porque as florestas localizadas nessas áreas se desenvolveram sob condições de elevada umidade. Com a redução da disponibilidade de água e o aumento das temperaturas, a vegetação pode perder parte da capacidade de resistir a períodos de estresse hídrico e ficar mais vulnerável à ocorrência e à propagação de incêndios.
Extremos são diferentes do aquecimento médio

Os pesquisadores destacam que observar apenas a elevação média das temperaturas pode esconder mudanças importantes que acontecem durante eventos extremos. Uma determinada região pode acompanhar a tendência geral de aquecimento da Amazônia, mas, ao mesmo tempo, passar por episódios de calor e seca muito mais intensos.
Foi justamente essa diferença que apareceu nos resultados. Enquanto o sul da floresta apresentou aumento relevante nas variações de temperatura e chuva, os valores permaneceram próximos da tendência média observada no planeta. No centro da Amazônia, porém, os episódios extremos se afastaram mais desse padrão.
Segundo Nathália Carvalho, pesquisadora de pós-doutorado no Lancaster Environment Centre e coautora do trabalho, essa característica mostra que o clima amazônico não está mudando de forma homogênea.
O estudo também chama atenção para os efeitos do estresse hídrico sobre a floresta. Períodos prolongados de calor e pouca chuva podem aumentar a mortalidade de plantas, animais e outros organismos, além de comprometer o funcionamento dos ecossistemas.







