A possibilidade de um El Niño de forte intensidade coloca as lavouras de grãos do Cerrado diante de um cenário de maior instabilidade climática.
Como a produção agrícola da região depende diretamente da distribuição das chuvas, alterações no início do período chuvoso e períodos prolongados de estiagem podem afetar o desenvolvimento das culturas e reduzir a produtividade.
El Niño nas lavouras

Entre as estratégias disponíveis para diminuir os impactos está o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), aliado a práticas de conservação e ao planejamento do manejo do solo e das lavouras. A combinação dessas medidas pode aumentar a capacidade de resposta dos sistemas produtivos diante de períodos de maior irregularidade climática.
O El Niño faz parte do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS), um ciclo natural que ocorre no Pacífico Equatorial e influencia o comportamento das temperaturas e das chuvas em diferentes partes do mundo. O fenômeno alterna períodos de aquecimento, conhecidos como El Niño, de resfriamento, associados à La Niña, e fases de neutralidade.
A identificação dessas fases considera as anomalias na temperatura da superfície do mar. O El Niño é caracterizado por temperaturas pelo menos 0,5°C acima da média histórica durante cinco meses consecutivos ou mais. Na La Niña, a anomalia é de pelo menos 0,5°C abaixo da média pelo mesmo período.
De acordo com o pesquisador Fernando Macena, da Embrapa Cerrados (DF), indicadores recentes apontam para um aquecimento significativo das águas do Pacífico Equatorial. O Índice Oceânico Niño (ION), utilizado para acompanhar a variação da temperatura da superfície do mar na região central do Pacífico, chegou a 1,4°C em junho de 2026. O resultado representou o segundo mês consecutivo acima do limite utilizado para caracterizar a fase quente do fenômeno.
Além do aquecimento das águas, mudanças nos padrões atmosféricos também reforçam a possibilidade de consolidação do El Niño. Segundo Macena, algumas projeções indicam que as temperaturas no Pacífico tropical podem superar 2,5°C acima da média, o que levaria o fenômeno a uma intensidade considerada excepcional.
Zoneamento

O zoneamento considera diferentes tipos de solo, cultivares e condições climáticas e classifica o risco de perdas em faixas de 20%, 30% e 40% para as culturas avaliadas. Além de orientar o planejamento da produção, o Zarc é utilizado como referência para políticas relacionadas ao crédito agrícola e ao seguro rural.
A utilização dessas informações antes da implantação da lavoura permite ao produtor ajustar a época de plantio e escolher combinações de solo e cultivar mais adequadas às condições previstas. Em um cenário de maior variabilidade climática, o planejamento antecipado pode reduzir a exposição das lavouras aos períodos críticos de falta de água.
O manejo também tem papel importante nesse processo. Práticas conservacionistas contribuem para melhorar as condições do solo e favorecer a retenção de água, aumentando a capacidade do sistema produtivo de enfrentar períodos de estiagem. Associadas ao planejamento baseado no Zarc e aos indicativos climáticos, essas medidas podem ajudar a reduzir os efeitos de eventos como o El Niño sobre as lavouras do Cerrado.







