O custo do financiamento pode comprometer uma parcela significativa da rentabilidade dos cafeicultores brasileiros em 2026.
Uma análise baseada em 14 painéis de custos de produção da safra deste ano mostra que, em uma das propriedades avaliadas, os encargos com crédito chegaram a R$ 86,07 por saca, o equivalente a 8,3% do Custo Operacional Efetivo (COE) e quase metade do lucro registrado por unidade produzida.
Cafeicultores brasileiros em 2026

O cenário combina uma estimativa de safra recorde, com 66,7 milhões de sacas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), e uma correção dos preços após as altas observadas no ciclo 2024/25. Ao mesmo tempo, o encarecimento dos fertilizantes mantém a pressão sobre os custos de produção, reduzindo a margem financeira dos produtores.
O impacto dos financiamentos, no entanto, varia conforme o volume de recursos contratados e as condições de acesso ao crédito. Dos 14 estabelecimentos analisados, três utilizaram exclusivamente capital próprio. Nas outras 11 propriedades, o financiamento cobriu entre 17,7% e 90% do custo operacional efetivo, com taxas de juros contratadas que variaram de 3% a 12,5% ao ano.
A propriedade com maior dependência de crédito registrou encargos de R$ 86,07 por saca. Já naquela com menor participação de recursos financiados, o custo ficou em R$ 9 por saca. A diferença está relacionada principalmente à quantidade de recursos tomados em relação ao volume produzido.
Despesas adicionais elevam o custo do financiamento
A taxa de juros contratada não representa o custo total do crédito rural. Despesas bancárias, elaboração de projetos e seguros vinculados ao financiamento também entram na conta e podem aumentar significativamente o valor pago pelo produtor.
Considerando esses encargos, a taxa média dos financiamentos avaliados sobe de 7,6% para 13% ao ano, um acréscimo de 5,4 pontos percentuais. Em quatro dos painéis analisados, as despesas adicionais superaram o valor dos próprios juros.
O levantamento também identificou diferenças entre as modalidades de crédito. O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) aparece nos seis painéis com as menores taxas, entre 3% e 6,5% ao ano. O Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) está presente em outros quatro, com taxas de 8% a 10%. Já a linha de crédito rural sem vinculação a programas específicos chegou a 12,5%.
A análise aponta que uma taxa contratual menor não garante, necessariamente, o financiamento mais barato. O peso dos seguros e dos demais encargos sobre o montante contratado pode fazer com que produtores enquadrados em linhas distintas tenham custos efetivos diferentes.
Plano Safra prevê redução de juros para parte dos produtores

As novas condições do Plano Safra 2026/27 alteram os limites de juros de algumas linhas de financiamento utilizadas na cafeicultura. No Pronamp, a taxa máxima caiu de 10% para 9% ao ano. Para o crédito rural sem vinculação a programas específicos, o limite passou de 14% para 12,5%.
No Pronaf, o custeio do café convencional passou a contar com juros de 5,5% ao ano, enquanto a produção de café orgânico ou em transição agroecológica tem taxa de 1% ao ano.
O plano foi anunciado em junho, com R$ 525,1 bilhões destinados à agricultura empresarial e R$ 97,3 bilhões à agricultura familiar. Desse último montante, R$ 85,2 bilhões foram direcionados ao Pronaf. Para o financiamento da cafeicultura, o Conselho Monetário Nacional também definiu R$ 7,37 bilhões para o Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé).
Outra possibilidade de redução dos juros é a concessão de descontos de até um ponto percentual no custeio, conforme os critérios de regularidade ambiental e sustentabilidade previstos nas regras do programa. A redução pode incluir meio ponto percentual para imóveis com Cadastro Ambiental Rural (CAR) analisado e em conformidade, além de outro meio ponto para produtores com certificações ou enquadramentos reconhecidos.
Segundo a análise, se a taxa do Pronamp cair de 9% para 8% ao ano com a aplicação dos descontos, a economia na propriedade mais dependente de crédito pode passar de R$ 8,61 para R$ 17,21 por saca, aproximando-se de 10% do lucro registrado por unidade produzida.
O benefício, porém, não se aplica ao Pronaf. Além disso, sua concessão depende da regulamentação das certificadoras habilitadas para o ciclo 2026/27. Até o fechamento do levantamento, não havia sido localizada a publicação de uma nova portaria interministerial para o período, embora programas de boas práticas voltados ao café já tenham sido contemplados em ciclos anteriores.







