O aumento do endividamento dos produtores rurais tem ampliado a preocupação com a capacidade de pagamento no campo. Em 2025, os pedidos de recuperação judicial no setor agropecuário cresceram quase 51% em relação ao ano anterior, segundo dados da Serasa Experian.
O avanço ocorre em meio a dificuldades financeiras provocadas por uma combinação de fatores que pressionam a renda e elevam os compromissos assumidos pelos produtores.
Recuperação judicial de produtores

O cenário também aparece nos dados de crédito rural. Em Mato Grosso, um levantamento do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), divulgado em julho de 2026, apontou que as operações classificadas como crédito problemático chegaram a R$ 21,79 bilhões até abril deste ano. O valor representa 18,22% de toda a carteira de crédito rural do estado.
A categoria considera contratos inadimplentes, renegociados ou prorrogados. O percentual registrado em 2026 é o maior da série histórica acompanhada pelo instituto. Em 2022, o indicador correspondia a 2,08% da carteira, mostrando a rápida expansão dos problemas financeiros enfrentados pelos produtores nos últimos anos.
Medida Provisória

Diante do agravamento das dificuldades, o governo federal publicou, em 15 de julho de 2026, a Medida Provisória nº 1.376. A medida prevê linhas especiais de crédito para a composição, liquidação ou amortização de dívidas relacionadas ao crédito rural e às Cédulas de Produto Rural (CPRs). A iniciativa tem como público produtores atingidos por perdas de safra e redução da renda.
A Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (FAEPA) considera importantes as medidas emergenciais, mas defende que o enfrentamento do endividamento seja acompanhado de uma análise mais ampla da situação financeira das propriedades. Para a entidade, há casos em que o problema deixa de ser temporário e passa a comprometer de forma mais profunda a capacidade de pagamento.
Na avaliação da Federação, a ampliação de prazos e a oferta de novas linhas podem ajudar produtores em situações específicas, mas não resolvem sozinhas um problema que envolve diferentes fatores. Entre eles estão os custos de produção, condições climáticas, preços dos produtos agrícolas, acesso ao seguro rural e a própria capacidade de geração de receita das propriedades.
A entidade também defende uma política de crédito integrada a instrumentos de gestão de riscos, seguro rural, proteção de renda, assistência técnica e maior previsibilidade para os produtores, considerando as diferenças entre as atividades e regiões do país.
Outro ponto de atenção é a sucessiva transferência de débitos para períodos futuros por meio de renegociações e prorrogações. Para a FAEPA, quando essas medidas são repetidas sem uma recuperação efetiva da atividade, o passivo financeiro tende a aumentar e pode comprometer a sustentabilidade econômica das propriedades.
O avanço do endividamento, segundo a entidade, coloca em discussão não apenas a situação financeira dos produtores, mas também a continuidade da produção agropecuária, com reflexos sobre a geração de empregos, renda e a oferta de alimentos no país.







